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Cultura & Sociedade

Matheus Redig

Mestre e Doutorando em Filosofia. Pesquisa sobre Filosofia da Arte, Cinema e Literatura.

A anatomia do ditador: "A Festa do Bode", de Mario Vargas Llosa

20 de setembro de 2025

Neste ano de 2025 perdemos o escritor peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de 2010, o último grande escritor do Boom latino-americano. Para homenageá-lo, vale comentar um pouco sobre um dos seus grandes livros, “A Festa do Bode” (La Fiesta Del Chivo), que eu considero uma excelente porta de entrada à obra do autor. Trata-se de uma ficção histórica publicada em 2000 que retrata, com técnicas sofisticadas, a anatomia da ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana.


Llosa reconstrói em seu romance os acontecimentos de 30 de maio de 1961 (dia do assassinato do ditador), a partir de três linhas narrativas: o olhar traumatizado de Urania, a filha de um general vassalo de Trujillo; o olhar dos conspiradores; e o do próprio Trujillo. Chamo atenção para o uso de múltiplos pontos de vista, entre flashbacks e flashforwards, técnica ficcional que Llosa aprendeu lendo William Faulkner. Combinando personagens históricos com figuras ficcionais, cada capítulo é governado pela perspectiva de um personagem, e às vezes de dois ou de três. O narrador em terceira pessoa, que se aproxima intimamente e mimetiza a linguagem áspera e coloquial dos personagens, faz com que o livro pareça narrado em primeira pessoa. É possível sentir na pele a selvageria dos agressores e a angústia das vítimas. 


A Era Trujillo (1930 a 1961) foi uma das mais longas e brutais do continente. O SIM, serviço de inteligência, e a máquina repressiva do regime deixaram um rastro de dezenas de milhares de mortos. Muitos corpos eram lançados aos tubarões (“Tarde demais, Excelência. Já os jogamos para os tubarões, ontem mesmo. Vivos, como o senhor mandou.”) Uma das manifestações mais diretas dessa violência de Trujillo é a justificativa e o comando do massacre de haitianos em 1937, do qual Trujillo se vangloria: 


"Por este país, eu me manchei de sangue — afirmou, escandindo as sílabas. — Para que os negros não nos colonizassem outra vez. Eram dezenas de milhares, em toda parte. Não existiria mais a República Dominicana. Como aconteceu em 1840, a ilha inteira seria Haiti. O punhado de brancos sobreviventes teria que servir aos negros. Foi essa a decisão mais difícil em trinta anos de governo, Simon."


Trujillo é retratado como um vigilante implacável, marcado por uma paranoia constante diante da possibilidade de traição: 


"É por isso que ainda estava vivo, enquanto tantos judas apodreciam em La Quarenta, La Victoria, na ilha Beata, na barriga dos tubarões, ou engordavam os vermes da terra dominicana". E ele se diverte com a possibilidade de "dar a todos os ratos, sapos, hienas e víboras o tratamento que mereciam. As barrigas dos tubarões eram testemunhas de que ele não se privara desse prazer".


Arte é a forma conjugada ao conteúdo, é o estilo que se liga ao tema, de modo que pareçam indissociáveis, "nascidos um para o outro", substâncias da mesma carne. Dessa maneira, a vigilância e a violência nos tempos de Trujillo são magistralmente revelados por esse entrelaçamento de vozes que Llosa desenvolve com uma objetividade plástica, ao modo flaubertiano. Lanço mão do clichê: é preciso "ter estômago" para as cenas de torturas bastante gráficas. Todavia, longe de ser apelativo ou gratuito, o horror que a obra nos traz deriva da ilusão de autonomia e de necessidade que as grandes criações ficcionais proporcionam ao leitor maduro, conforme o próprio Llosa explica em outra grande obra sua: "Cartas a um Jovem Escritor". 


Llosa ganhou o Nobel por sua "cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual". E eu complemento que essa "cartografia" só foi possível graças a um domínio impecável, hoje em dia muito raro, das vozes e dos tempos narrativos. Em "A Festa do Bode", Llosa mostrou que a literatura pode ser, ao mesmo tempo, crítica política não-panfletária e obra de arte rigorosamente lapidada, capaz de traduzir, pela linguagem da ficção, a anatomia de uma ditadura.


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