Cultura & Sociedade
A armadilha digital: como Apps de encontro se tornaram portais para o tráfico humano
Redação
24 de agosto de 2025

Ela acreditava estar prestes a se casar com um homem italiano rico que conheceu no Tinder, mas a viagem dos sonhos para o Qatar via Dubai se transformou em um pesadelo de exploração sexual. A promessa de um futuro luxuoso rapidamente se dissolveu quando a mulher singapurense foi informada de que precisava mostrar US$ 10.000 como prova de fundos antes de poder entrar no Qatar – uma exigência que se revelaria a primeira peça de um elaborado esquema de tráfico humano.
De acordo com as acusações do Ministério Público, o italiano Achraf Arjaouy organizou para que ela prestasse serviços sexuais em Dubai, coletando seus ganhos diariamente até que a vítima contraiu uma doença sexualmente transmissível. O caso, que agora está sendo julgado sob a Lei de Prevenção ao Tráfico de Pessoas de Singapura, expõe como aplicativos de namoro se tornaram ferramentas para recrutamento por meio de decepção para fins de exploração sexual.
O tribunal ouviu que Arjaouy chegou a Singapura em março de 2021 e conheceu a mulher, cuja identidade está protegida por ordem judicial, no Tinder um mês depois. A narrativa construída pelo acusado – a de um homem abastado buscando matrimônio – revela uma estratégia calculista que explora não apenas a vulnerabilidade emocional, mas também aspirações por mobilidade social e econômica através de relacionamentos transnacionais.
A mãe da vítima registrou uma queixa policial, iniciando um processo legal que transcende o caso individual para questionar a segurança digital em um mundo onde conexões românticas são mediadas por algoritmos. A história serve como alerta sobre como a busca por amor e estabilidade econômica em plataformas digitais pode criar brechas para esquemas criminosos que operam através de fronteiras internacionais.
O julgamento de Arjaouy, que assumiu o banco das testemunhas na sexta-feira, representa não apenas a busca por justiça para uma vítima, mas um teste para os mecanismos legais destinados a combater formas modernas de tráfico humano que se aproveitam da infraestrutura digital global. A capacidade de predadores se conectarem com potenciais vítimas através de aplicativos populares revela a necessidade urgente de maior vigilância e proteção no ambiente digital.
Esse caso particular ilustra uma tendência preocupante em que a tecnologia, projetada para conectar pessoas, é instrumentalizada para fins de exploração, levantando questões sobre a responsabilidade das plataformas digitais e a preparação das autoridades para lidar com crimes que transcendem jurisdições nacionais.
Os números internacionais reforçam a gravidade do problema. De acordo com o Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2022 das Nações Unidas, cerca de 50 mil vítimas são detectadas anualmente em todo o mundo, embora o número real seja considerado muito maior devido à subnotificação. O relatório aponta ainda que 38% dos casos de tráfico têm como finalidade a exploração sexual, sendo mulheres e meninas as principais vítimas. Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, em 2021, 27,6 milhões de pessoas viviam em condições de trabalho forçado, das quais 6,3 milhões em exploração sexual comercial forçada.
Singapura, apesar de sua rígida estrutura legal e tecnológica, não está imune a essas redes. O Departamento de Estado dos EUA, em seu relatório de 2024 sobre tráfico humano, destacou a cidade-Estado como país de destino para exploração sexual e laboral, muitas vezes envolvendo vítimas atraídas por promessas enganosas de emprego ou relacionamentos. Esse panorama global e local mostra como casos individuais, como o da vítima enganada pelo falso “noivo italiano”, estão inseridos em uma engrenagem criminosa de escala transnacional que explora vulnerabilidades emocionais e digitais para alimentar mercados ilícitos de bilhões de dólares.
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