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Cultura & Sociedade

Luiza Bulhões

Psicóloga com experiência em Psicologia jurídica e especialista em atendimento de pessoas em situação de violência

Quando a sociedade empurra meninas à adultização precoce

8 de setembro de 2025

A adultização infantil avança no Brasil como uma prática invisível, mas com efeitos profundos. Crianças, principalmente meninas, são incentivadas a assumir papéis, responsabilidades e comportamentos que não correspondem à sua idade. O fenômeno, atualmente exposto pelo influenciador digital Felca, se mostra principalmente em redes sociais e até em programas de entretenimento, mas não é o único contexto que essa problemática se mostra.


Dados do IBGE apontam outro contexto da adultização, aquele em que 1,8 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos ainda trabalham no país. Essa realidade exige maturidade precoce, obriga meninos e meninas a se adaptarem a rotinas de adultos e reduz o espaço para brincar e se desenvolver de forma saudável. No campo psicológico, a pressão constante pode gerar ansiedade, culpa e sensação de insuficiência desde cedo.


O cenário é ainda mais grave para meninas expostas à adultização. Muitas são incentivadas a se vestir, agir e se comportar como mulheres adultas. Nas redes sociais, aparecem em vídeos com roupas curtas, coreografias sexualizadas e falas que reforçam a lógica do produto pronto para ser consumido. Esse processo cria a percepção de que seu valor está na aparência ou no quanto conseguem agradar ao olhar masculino. Estudos da Sociedade Brasileira de Pediatria já apontam que meninas submetidas a esse tipo de exposição apresentam maior risco de depressão, transtornos alimentares e baixa autoestima.


O problema vai além da infância. A psicologia alerta que a criança adultizada tende a se tornar um adulto disfuncional, que revive episódios de abuso — principalmente em sua forma virtual — e replica padrões de exploração. Isso acontece porque a experiência precoce molda a forma como o indivíduo se enxerga na sociedade. Em muitos casos, meninas crescem acreditando que seu papel é ser objeto de desejo ou cuidado, e não sujeito de direitos. A identidade passa a ser construída em torno da lógica de servir, agradar ou se vender, comprometendo a autonomia e a saúde mental.


Esse processo também perpetua desigualdades de gênero. Ao normalizar que meninas cuidem da casa, “se comportem como moças” ou sejam expostas como produto, a sociedade reforça ciclos de violência e limita o futuro dessas jovens. Quando a adultização é combinada com a falta de proteção social, o risco de evasão escolar, exploração sexual e revitimização aumenta de forma significativa.


Especialistas defendem que a solução passa por políticas públicas eficazes, fiscalização contra o trabalho e exploração infantil, além de conscientização das famílias. Garantir tempo de lazer, brincar e proteção contra a exposição digital precoce é fundamental. A infância deve ser vivida como infância, sem pressões adultas, para que no futuro esses indivíduos se tornem adultos saudáveis, críticos e autônomos.


A adultização infantil não é sinal de maturidade, mas de negligência social. No Brasil, a urgência é proteger meninas e meninos antes que cresçam acreditando que são apenas produtos de consumo em uma sociedade que insiste em roubar suas infâncias.


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