Sustentabilidade & Futuro

Luiz Felipe Ferreira
Arquiteto e urbanista com experiência internacional e regional em planejamento urbano
Cidades não se fabricam, elas florescem
8 de setembro de 2025

Muita gente ainda acredita que novos centros urbanos podem ser criados artificialmente: desenha-se no mapa, investe-se em infraestrutura, regula-se cada espaço, e pronto, a vida urbana acontece. A lógica parece simples: serviços perto de casa, menos deslocamento, mais caminhada. Mas a experiência mostra que não funciona assim. Brasília é um exemplo clássico: a ideia era que cada "Unidade de Vizinhança" fosse autossuficiente. Na prática, ninguém quis ficar preso à sua "Superquadra". O carro continuou essencial, e a vida urbana não se comportou como planejado.
Muitas vezes, a defesa dessas soluções por algumas pessoas refletem uma hipocrisia urbana: querem que todos façam as coisas andando, enquanto continuam usando o carro sem enfrentar trânsito ou falta de vaga. Cada um olha só para sua própria necessidade, sem pensar na dinâmica real da cidade.
Para uma cidade viva, reduzir o uso do carro é essencial. O acesso à oportunidades e serviços dependem disso. O desafio é uma questão simplesmente física e qualquer tentativa de mudar a cidade sem passar por esse processo é inútil.
A vida urbana não cabe em feudos planejados. Negócios funcionam com demanda real, não com decretos. As pessoas querem liberdade para escolher onde ir. O restaurante ou bar mais interessante, onde tiver oportunidade de emprego, e não ficar restritas a um mapa.
As cidades existem justamente porque concentrar pessoas, empregos e serviços faz a economia girar. Se bastasse viver perto de casa, continuaríamos em vilarejos. É a densidade que gera oportunidades e soluções, que dá sentido aos centros urbanos.
Em Belém, Marambaia e Pedreira são exemplos de como a cidade floresce espontaneamente. Vida noturna, serviços, comércio, não surgiram porque alguém determinou, mas porque as condições estavam lá: densidade, circulação e diversidade. O papel do planejamento é fornecer estrutura para que a cidade se desenvolva, com regras flexíveis e múltiplos usos, sem tentar controlar cada pedacinho da vida urbana.
No fim, a lição é clara: cidades não se fabricam, elas florescem. E soluções reais só surgem quando permitimos que a dinâmica entre pessoas, empregos e serviços aconteça naturalmente. O resto é sonho de urbanista no papel.
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