Cultura & Sociedade

Luiza Bulhões
Psicóloga com experiência em Psicologia jurídica e especialista em atendimento de pessoas em situação de violência
Correr por prazer ou para pertencer? O dilema psicológico por trás das práticas coletivas
28 de setembro de 2025

Nos últimos anos, o número de brasileiros que praticam corrida cresceu de forma significativa. Segundo dados da Federação Paulista de Atletismo, só em São Paulo o número de inscritos em corridas de rua aumentou 27% entre 2022 e 2024. Redes sociais, aplicativos de monitoramento e grupos de corredores ajudam a manter esse movimento em evidência. Mas uma pergunta central surge: você corre porque gosta ou porque tem a necessidade de pertencer a um grupo?
Do ponto de vista psicológico, a necessidade de pertencimento é um dos aspectos mais básicos do ser humano. Teorias clássicas da psicologia social, como a Hierarquia de Necessidades de Maslow, já apontavam que, depois de suprir necessidades fisiológicas e de segurança, o indivíduo busca conexão e aceitação social. A corrida em grupos, os treinos coletivos e a constante exposição em redes sociais suprem diretamente a essa necessidade.
No entanto, especialistas alertam para os riscos quando a busca por pertencimento se sobrepõe ao prazer da prática. Em sessões de psicoterapia, é rotineiro ouvir relatos de pessoas que mantêm a rotina de corrida não por prazer, mas por medo de se sentirem excluídas socialmente. O discurso “se eu não postar meu treino, não fiz” revela a pressão criada “inconscientemente” pelo coletivo. Essa pressão gera frustração, ansiedade de desempenho e comparação constante.
A corrida, que deveria ser uma atividade física saudável, passa a representar também uma vitrine de status. Marcas esportivas e organizadores de provas reforçam a ideia de comunidade, mas também estimulam o consumo de roupas, tênis e acessórios como símbolos de pertencimento. O resultado é que muitas pessoas se sentem obrigadas a seguir padrões, não por saúde ou prazer, mas para continuar incluídas.
Do ponto de vista clínico, essa dinâmica pode moldar um ciclo de insatisfação. Indivíduos que não conseguem acompanhar o ritmo dos colegas ou não alcançam tempos competitivos tendem a se cobrar excessivamente. A prática, que deveria reduzir o estresse, passa a intensificá-lo. O prazer de correr se dilui diante da necessidade de provar que se está “dentro do movimento”.
A crítica não é contra a corrida, mas contra a forma como a comparação e o pertencimento mal direcionado transformam uma atividade saudável em um espaço de cobrança. É necessário refletir: o que motiva cada passo? Se a resposta está ligada apenas ao olhar externo ou ao desejo de aceitação, o risco de frustração é alto.
O desafio contemporâneo é equilibrar prazer pessoal e pertencimento social. Correr em grupo pode ser positivo, desde que não apague a individualidade de cada praticante. Quando a motivação está no prazer, a corrida é fonte de bem-estar. Quando está apenas no pertencimento, torna-se mais um peso psicológico.




