Cultura & Sociedade
EAD na formação docente: acesso ampliado, qualidade em questão
Redação
27 de setembro de 2025

Nos últimos dez anos, a formação de professores no Brasil passou por uma transformação profunda que reconfigurou o perfil do magistério nacional. Em 2013, apenas 26% dos docentes tinham concluído a licenciatura a distância em instituições privadas, enquanto hoje esse percentual já chega a 61%, segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025. Essa mudança radical na formação docente reflete uma tendência que combina oportunidades de acesso com riscos concretos à qualidade da educação, conforme análise do doutor em educação pela Universidade Federal do Paraná, Gabriel Petter.
A tendência de crescimento tem se consolidado, sobretudo nos cursos de pedagogia, e pode ser explicada por alguns fatores fundamentais: a privatização da oferta de vagas, o perfil do público atendido e o baixo custo dos cursos. "São, em geral, estudantes mais velhos, trabalhadores, que buscam conciliar o ensino superior com a vida profissional. E como as mensalidades são baratas, esses cursos se tornam muito acessíveis", explica Petter. O cenário se soma a outro avanço registrado na última década: a redução de professores da educação básica sem diploma universitário, que caiu de 23,8% para 12,5%, indicando uma expansão quantitativa que não pode ofuscar os desafios qualitativos.
Apesar de reconhecer o papel inclusivo do EAD, Petter destaca riscos associados à modalidade que afetam diretamente a essência da profissão docente. "A docência é uma atividade relacional. Quando a formação é feita de forma muito individualizada, com aulas gravadas e poucos espaços de debate, perde-se uma qualidade essencial, que é o convívio com o contraditório e a vivência em sala de aula. Isso prejudica a formação prática do professor", afirma o especialista. Mesmo com a exigência recente de que metade da carga horária dos cursos de licenciatura seja presencial, ainda é difícil garantir que os estágios curriculares e momentos práticos sejam cumpridos adequadamente em meio à enorme quantidade de ofertas disponíveis no mercado.
As consequências dessa formação deficitária chegam diretamente à sala de aula, criando um efeito cascata que impacta todo o sistema educacional. Segundo Petter, é comum que o ensino médio seja afetado por deficiências acumuladas desde o fundamental. "Temos alunos que chegam sem saber realizar operações básicas ou com dificuldades enormes de leitura. Uma boa formação docente pode minimizar esses impactos, mas, quando é precária, os problemas se acumulam até a universidade, onde ainda encontramos estudantes que não sabem interpretar um texto", alerta o pesquisador. Essa realidade expõe as fragilidades de um sistema que prioriza a quantidade em detrimento da qualidade.
Para o especialista, a solução passa por maior rigor na supervisão dos cursos pelo Ministério da Educação. "O problema não é a quantidade de matrículas nem a existência de instituições privadas. Elas ajudam, de certa forma, também a incrementar o número de pessoas que conquistam, muitas delas numa primeira geração familiar, um título universitário. Mas é preciso que haja uma supervisão do MEC", defende Petter, reforçando que "docência não é para qualquer um. Ser professor exige formação sólida, teórica e prática".
A expansão da educação a distância tem, por outro lado, permitido que muitos brasileiros sejam os primeiros de suas famílias a obter um diploma universitário, representando uma democratização do acesso ao ensino superior. "Não existe uma crítica por si só à educação à distância. Ela cumpre a função de dar acesso ao diploma superior", reconhece Petter, mas completa com um alerta crucial: "Mas se a gente formar profissionais ruins, especialmente no campo da educação, só estaremos reproduzindo as desigualdades sociais".
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