Cultura & Sociedade

Luiza Bulhões
Psicóloga com experiência em Psicologia jurídica e especialista em atendimento de pessoas em situação de violência
Metanol em bebidas: o alerta que escancara a relação do jovem brasileiro com o álcool
4 de outubro de 2025

O aumento de casos envolvendo bebidas adulteradas com metanol gerou alerta em várias cidades brasileiras. As ocorrências, registradas em festas e bares, colocaram em risco a saúde de centenas de pessoas e reacenderam o debate sobre o consumo de álcool no país. A substância, altamente tóxica, pode provocar desde cegueira até a morte, sem falar da alta taxa de dependência que o álcool em si já provoca quando usado como válvula de escape para as tensões do dia a dia.
Nas redes sociais, usuários ironizaram a situação, chamando os episódios de “a maior propaganda contra o álcool já feita”. A reação expõe uma questão sensível: o brasileiro naturalizou o consumo de bebidas alcoólicas, mesmo sabendo dos riscos. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que o álcool está associado a mais de 30 doenças e a 85 mil mortes anuais no país. Ainda assim, o prazer imediato proporcionado pela bebida e a sensação de pertencimento social continuam a se sobrepor à consciência sobre os danos.
Psicólogos observam que, para muitos jovens, o álcool não é apenas parte do lazer, mas uma forma de lidar com a ansiedade, a frustração e a solidão. Esse padrão cria dependência emocional e comportamental: não se trata apenas de beber para relaxar, mas de acreditar que sem a bebida não há como socializar ou suportar determinadas situações. A lógica de “beber para aguentar” reforça um ciclo de fuga, que aumenta a vulnerabilidade psicológica e reduz a capacidade de enfrentar as dificuldades de forma saudável.
A notícia da adulteração trouxe ainda mais complexidade. Entre jovens adultos, faixa etária que mais consome bebidas industrializadas e de baixo custo — justamente as mais visadas por falsificadores —, a sensação de insegurança se intensificou. Muitos relatam em sessões de psicoterapia receio de consumir algo contaminado e ansiedade constante diante da dúvida sobre a segurança do que ingerem. O que antes já era uma escolha marcada pela pressão social agora carrega também o risco de intoxicação grave, somando ameaça física e psicológica.
Esse contexto reacende o debate sobre o pertencimento. Se antes era entendido como uma necessidade humana básica, hoje se observa um padrão de dependência: jovens acreditam que só são aceitos no grupo se bebem, mesmo quando não desejam. A aceitação deixa de ser espontânea e passa a ser condicionada à repetição de um comportamento, criando uma dinâmica de exclusão velada. Logo, a adulteração com metanol não só ameaça a saúde física, mas amplia o medo de perder vínculos sociais, reforçando sentimentos de pânico, insegurança e desconfiança.
Especialistas defendem que campanhas preventivas precisam ir além da ênfase em acidentes de trânsito. É urgente a necessidade de ampliar a discussão sobre a dependência do álcool como recurso emocional, bem como sobre o pertencimento social como fator de risco para o consumo. A geração mais impactada pela adulteração é também a mais vulnerável à ansiedade, à comparação e à pressão das redes sociais.
O recado vai além do copo contaminado: o metanol expôs como juventude, álcool e saúde mental estão diretamente conectados em um ciclo de risco que precisa ser enfrentado com seriedade.
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