Sustentabilidade & Futuro
Petróleo no Brasil: entre crescimento econômico e desafios climáticos
Redação
26 de janeiro de 2026

A indústria extrativa, composta sobretudo por petróleo, mineração e madeira, representa cerca de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, um peso que não reflete a totalidade da relevância estratégica do combustível fóssil para o país. Apesar do crescimento esperado de mais de 10% na produção em 2026, a importância do petróleo se desloca para outras esferas da economia nacional, evidenciando uma complexa relação entre desenvolvimento econômico imediato e os compromissos de longo prazo com a descarbonização.
A arrecadação do setor público e a balança comercial emergem como os principais vetores de influência do petróleo. A economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), destaca que, após décadas de dependência de importações até 2015, o Brasil se transformou em um exportador, com um quarto do saldo comercial atual proveniente do produto. Este superávit gera divisas cruciais para um país com déficit em conta corrente, conforme aponta Bráulio Borges, da LCA Consultores, que projeta a arrecadação federal com o petróleo saltando de 0,9% do PIB (entre 2011 e 2019) para 1,7% atualmente, com potencial de alcançar 2,5% na próxima década.
Os investimentos no setor também ganham destaque, respondendo por metade do crescimento de 4% nos investimentos totais do país no ano anterior, impulsionados principalmente por plataformas de petróleo. Esta dinâmica econômica positiva, no entanto, ocorre em um contexto global de pressão para o abandono dos combustíveis fósseis como medida essencial para controlar o aquecimento global, colocando em xeque a exploração de novas fronteiras, como a polêmica Margem Equatorial na foz do Rio Amazonas.
Diante das críticas ambientais, Matos defende a importância da nova fronteira para o país, enquanto Nicolas Lippolis, fundador do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD), oferece uma perspectiva crítica. Ele argumenta que a dependência arrecadatória é mal distribuída, concentrada em estados como o Rio de Janeiro, e que seria possível abrir mão gradualmente desses recursos, pois "a receita do petróleo é mal distribuída e mal aproveitada. Não acho que dependamos tanto dela".
O debate sobre a segurança energética e a transição aponta para um caminho complexo. Lippolis reconhece que, do ponto de vista estratégico, parece difícil abdicar unilateralmente da exploração enquanto outros países mantêm suas produções. A solução, em sua visão, reside na cooperação internacional: "É preciso que países busquem um acordo internacional para limitar a produção. Esse é o único caminho para alcançar as metas climáticas." Esta afirmação sublinha o dilema central entre a soberania energética nacional e a responsabilidade climática coletiva, onde o crescimento econômico baseado em recursos fósseis colide com a urgência de um futuro sustentável.
LEIA TAMBÉM

Shanxi, o coração do carvão chinês, dá salto histórico com renováveis superando combustíveis fósseis
A província de Shanxi, responsável por um quarto das reservas de carvão da China, alcançou um marco histórico: a capacidade instalada de energia renovável ultrapassou a do carvão, atingindo 55,1% do total. Este avanço simboliza uma transformação profunda no maior centro energético do país e serve como teste crucial para as metas climáticas de Pequim.



