Política & Mundo

Gustavo Freitas
Analista de política internacional com experiência em zonas de conflito, tendo feito coberturas in loco na Ucrânia, Síria e Líbano
O Irã é o país a se atentar em 2026
2 de janeiro de 2026

O Irã entra em 2026 sob um tipo de pressão que o regime conhece bem, mas enfrenta agora em condições piores. Há alguns dias o país está sob protestos em diversas cidades por conta da piora na economia. A moeda perdeu qualquer referência de estabilidade, o dólar superou 1,44 milhão de riais no mercado informal, a inflação ronda 50% e os bazares come çaram a fechar em protesto. No Irã, isso é sintoma de gravidade.
Desde muito antes da Revolução Islâmica, o bazar funciona como ator político organizado, com redes próprias de crédito, logística e mobilização. Foi assim nos anos finais do regime do xá, quando o fechamento coordenado dos bazares ajudou a paralisar a vida urbana e abriu caminho para 1979. A República Islâmica nasceu dessa engrenagem e por isso sabe exatamente o que ela significa quando volta a girar contra o poder.
A convergência entre bazar e universidade também não é novidade. Antes e depois da revolução, esse eixo sempre sinalizou crise de legitimidade, não apenas de gestão. Os comerciantes cortam a circulação econômica, os estudantes ocupam o espaço simbólico e político. O regime já lidou com isso antes.
Em 1999, em 2009, nas ondas de protestos da última década, a teocracia usou repressão calibrada, concessões pontuais e desgaste do movimento até apagar o incêndio. Funcionou. Só que 2026 começa com menos gordura institucional e muito mais pressão material. A diferença agora é o contexto econômico. A margem para absorver choque social encolheu drasticamente.
As sanções da ONU contra o Irã entraram em vigor outra vez após 10 anos, ampliando o isolamento do país e estrangulando ainda mais a economia. Finanças, seguros, transporte marítimo, tecnologia sensível e energia voltaram a operar sob restrições amplas. Bancos iranianos ficaram ainda mais isolados, importações ficaram mais caras, peças industriais sumiram, investimentos evaporaram.
O efeito aparece no cotidiano. Indústrias parando, crise energética, reservatórios em níveis críticos, risco real de apagões no inverno e uma população que já não consegue transformar aperto em resiliência automática. O regime já administrou crise sob sanções, agora lida com uma crise estrutural sob sanções reforçadas.
Se já não fosse suficiente, Benjamin Netanyahu voltou ao seu papel favorito, o de profeta permanente do desastre iraniano. Segundo ele, o Irã está sempre a dias, semanas ou horas de algo catastrófico. Netanyahu repete essa ladainha há mais de vinte anos, erra todas as previsões e nunca precisa explicar por quê.
Mentiu no passado recente, segue exagerando e agora tenta empurrar o mesmo roteiro para Donald Trump. A ideia de um ataque preventivo iraniano contra Israel serve muito mais à sobrevivência política de Netanyahu do que a qualquer leitura séria de Teerã. O Irã pode ser ideológico, duro e agressivo em retórica, mas não é um ator que se move por impulso suicida.
Isso não elimina risco militar. Desde os ataques israelenses de junho, o Irã trata a próxima escalada como possibilidade concreta. Exercícios com mísseis, reconstrução de capacidades atingidas, deslocamento de comandantes e avisos públicos fazem parte de uma doutrina moldada por isolamento e sobrevivência.
É, de fato, um ano de muitos desafios internos e externos para o regime. A fissura parece ser maior e o contexto parece colocar cada vez mais a teocracia em teste. Engana-se - e muito - quem aposte que isso signifique um estado iraniano enfraquecido. Longe disso. Irã não é a Síria, nem a Líbia ou o Líbano. A capacidade de reação já foi testada em 2024 e causou terror em Israel, e farão novamente se for preciso.
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