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Mayra Alejandra Campos
Advogada, exilada e perseguida pelo regime de Nicolás Maduro
Uma tirania entre mares
27 de outubro de 2025
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Se eu te menciono o Mar do Caribe, o que vem à sua mente? Provavelmente você pensa em águas cristalinas, em praias dignas de um paraíso. Talvez pense na simpatia do seu povo ou no clima tropical que caracteriza uma região como essa. Mas... desde quando você associa o Caribe ao narcotráfico? Sim, o mesmo narcotráfico contra o qual os Estados Unidos declararam guerra.
Os navios no Mar do Caribe têm sido um tema de grande polêmica nos últimos meses, sobretudo porque o regime na Venezuela tem descrito isso como uma possível “invasão” ou uma guerra contra o território venezuelano — e tem tentado buscar ajuda justamente naqueles organismos internacionais que tanto criticou no passado.
Para nós que vivemos o exílio forçado, os dias começam com um café e um “bom dia” diferente. Pensamos em como seguir em frente e, ao mesmo tempo, em como ajudar nossa família na Venezuela. Preocupamo-nos com o dia a dia, em aprender algo novo e nos adaptar, em acompanhar os acontecimentos desse novo país que nos acolhe. No entanto, entre todas essas coisas, ainda surgem notícias que nos enchem de esperança — ou de ceticismo. Em cada venezuelano da diáspora você encontrará uma resposta diferente; contudo, neste momento, todos coincidimos em algo: sabemos o que está acontecendo.
Como não estar conscientes de tudo o que se passa? Se Nicolás Maduro passou de ditador a terrorista. Diversos chefes de Estado já declararam o famoso Cartel de Los Soles como uma organização terrorista que ameaça diretamente a segurança do hemisfério. E é aí que, por mais que tentemos nos desconectar e viver nossa nova vida, a Venezuela permanece presente — em nossos pensamentos e em nosso cotidiano.
Por mais que o regime e os poucos aliados que ainda restam tentem vender a narrativa de que tudo isso é uma guerra contra a Venezuela, nós, venezuelanos, sabemos o que realmente está acontecendo. Estão sendo tomadas ações contra narcoterroristas que mantêm um país inteiro sequestrado — por meio das armas e de seus corpos repressivos —, responsáveis por perseguir, prender e assassinar as pessoas que se opõem ou levantam a voz.
É por isso que as notícias podem encher alguém tanto de ceticismo quanto de esperança. Porque estamos vendo uma oposição que não se dobrou, apesar dos mais de novecentos presos políticos que aumentam a cada dia. Estamos vendo que o lema “vai acontecer” não são palavras vazias: vêm acompanhadas de ações e sustentadas por tudo o que construímos e consolidamos no dia 28 de julho, quando demonstramos nossa vitória. E, é claro, para os venezuelanos que tiveram de abandonar seu país, acreditar nisso é algo extremamente difícil, levando em conta toda a história que carregamos.
E eu foco em como recebemos as notícias — e se acreditamos nelas ou não — porque o que está acontecendo, longe de ser uma ameaça ao nosso país, é visto como aquela luz no fim do túnel que os venezuelanos têm atravessado durante 26 anos de chavismo. Por isso falamos em ceticismo: porque desejamos que “algo aconteça”, algo que finalmente destrua esse sistema criminoso que vem destruindo sistematicamente o nosso país.
As ações que vimos até agora mostram que o alvo é a cúpula que mantém nossos poderes e instituições em cativeiro. Não é contra o povo venezuelano. É o chavismo quem levantou armas contra o povo quando roubou as eleições de 28 de julho — quando esse mesmo povo se uniu para escolher e defender seu voto. Amedrontaram uma nação inteira e hoje esperam que as vítimas de todos os seus crimes se somem para “defendê-los”.
Por mais que estejamos a milhares de quilômetros de nossa terra, nossos olhos e corações continuam voltados para ela. Podemos ter fugido do perigo, mas a informação sempre chega até nós. E só esperamos que a próxima notícia que recebamos seja aquela que esperamos há tantos anos: o fim da tirania.
