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Sustentabilidade & Futuro

Heleno Beckmann

É publicitário, empreendedor e escritor paraense. Fundador da Fluxo e presidente do Açaí Valley, atua na interseção entre inovação, cultura e futuro. Já representou o Brasil em programas de liderança como o YLAI e o Pró Líder, e hoje escreve sobre os caminhos da Amazônia contemporânea — entre tecnologia, política e poesia.

Um Caminho para o Mundo: o Pensamento de Xi Jinping sobre uma Civilização Ecológica

11 de novembro de 2025


Durante a COP 30, entre painéis sobre transição energética e negociações sobre financiamento climático, um pequeno livreto chamava atenção em um dos estandes oficiais chineses. Capa branca, letras discretas, mas um título ambicioso: “Toward a More Beautiful China and Cleaner World — Understanding Xi Jinping Thought on Ecological Civilization.”

Folheá-lo é como abrir uma janela para o modo como a China enxerga o futuro verde — e, sobretudo, o papel central de Xi Jinping nessa visão. O texto não é apenas um relatório ambiental: é uma declaração ideológica. Nele, o presidente chinês é apresentado como o arquiteto de uma nova era em que “a humanidade e a natureza formam uma comunidade de destino compartilhado”.


Desde o início, o livro repete um conceito-chave: “civilização ecológica” — uma ideia que Xi começou a articular há mais de uma década e que hoje está inscrita na própria Constituição chinesa. A noção vai além da proteção ambiental. Ela redefine o relacionamento entre desenvolvimento econômico, ordem social e legitimidade política. Segundo Xi, “lucidez das águas e exuberância das montanhas são ativos inestimáveis” — uma metáfora que sintetiza a fusão entre prosperidade e pureza, produtividade e moralidade.


O discurso é estruturado como uma narrativa de redenção: a China, após décadas de crescimento poluidor, teria finalmente encontrado o equilíbrio entre modernidade e harmonia natural. Xi aparece como o líder que “coloca o povo no centro” e guia o país de uma civilização industrial para uma “civilização verde” — científica, disciplinada e moralmente elevada.

No livreto, os dados ambientais se entrelaçam com uma linguagem de fé cívica. As estatísticas — como a redução de 54% no PM2.5 (material particulado fino) urbano, a criação de 10 mil reservas naturais e a promessa de neutralidade de carbono até 2060 — são descritas como provas materiais de um despertar nacional. O texto transforma políticas públicas em um código ético: poluir é uma falha moral, enquanto reciclar, reflorestar ou fiscalizar são atos de patriotismo.


Por trás da retórica ambiental, há um projeto político claro: centralizar o poder sob a bandeira da governança ecológica. Xi é descrito não apenas como um líder, mas como um intérprete da natureza, alguém que “une montanhas, rios, florestas e desertos” sob uma mesma lógica de administração e controle.


Uma das seções mais reveladoras trata da “Rule of Law” (Estado de Direito) na proteção ambiental. Longe de um liberalismo jurídico, o texto exalta a verticalização da fiscalização, a criação de sistemas centralizados de dados e inspeções conduzidas por órgãos subordinados diretamente ao governo central. É um ecologismo de comando, que usa a lei como ferramenta de disciplina nacional.


A ecologia também serve como argumento para a digitalização total: monitoramento de emissões, rastreabilidade do uso da terra e bancos de dados integrados são descritos como “colunas da civilização ecológica”. O controle ambiental se converte, na prática, em uma infraestrutura de governança.


Nas páginas finais, o livro amplia o horizonte. A “civilização ecológica chinesa” é apresentada como um modelo universal, capaz de liderar o mundo rumo à harmonia global. De Kunming a Montreal, de Nairóbi a Belém, a China se coloca como mediadora entre o Norte e o Sul, defensora da justiça climática e financiadora do “Belt and Road verde”.


Xi é citado dizendo que “a humanidade compartilha um mesmo lar planetário”, e que só haverá futuro se todos seguirem “um caminho de prosperidade verde”. Mas essa fraternidade vem com uma condição implícita: aceitar a gramática ecológica da China — centralizada, moral e estratégica.


Ao final, o livreto é uma síntese do modo como Pequim articula poder e legitimidade na era climática. A “civilização ecológica” de Xi Jinping é, ao mesmo tempo, um projeto moral, um instrumento de controle e uma narrativa de liderança global. É impossível negar o avanço ambiental chinês em energia limpa, reflorestamento e políticas de controle da poluição — mas é igualmente impossível ignorar o componente ideológico que transforma o verde em doutrina de Estado.


Encontrar esse livreto na COP 30, entre painéis sobre descarbonização e justiça climática, é um lembrete claro de que a disputa climática global também é uma disputa de narrativas. Enquanto o Ocidente fala em “transição justa”, a China oferece “harmonia eterna”. E, para Xi Jinping, essa harmonia é mais do que um ideal ambiental — é a promessa de um novo tipo de civilização.

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