Esportes

Júlio Augusto
colunista em O FLUXO
O Paysandu precisa dar chance ao novo
30 de janeiro de 2026

No futebol, inúmeros foram os clubes que enfrentaram crises. Algumas cativam o desejo de melhora, outras provocam o riso e o divertimento de rivais, mas aquelas no próprio clube chegam a ser pessoalmente frustrantes. Quando tudo parece dar errado, não há outro caminho para a maioria das diretorias: a solução fica por conta do famoso método de tentativa e erro. Às vezes, a tentativa é louvável, inclusive uma lição aprendida com o fracasso; outras vezes, a tentativa é simplesmente escandalosa (“como puderam pensar nisso?”, “o que tinham na cabeça?”, “não aprenderam nada com o passado?”). No Paysandu Sport Club, a crise é esportiva, é financeira, tem todos os requisitos para ser estrutural, mas acima de tudo, é uma crise identitária.
Os times dependem de muitos fatores para o seu sucesso, e todos eles são delicadamente interligados: bons jogadores, boa comissão técnica, uma marca com presença no mercado, bilheteria das partidas, resultados consistentes e dias ruins dos adversários. Podemos ver que para toda essa roda girar são necessárias pessoas, material humano trabalhando dentro do Clube, apoiando nas arquibancadas e investindo seu dinheiro em algo minimamente atrativo. Se pessoas estão à frente de todo esse processo, sua imagem também está, e não deve haver nada mais frustrante para o torcedor bicolor do que desacreditar de grande parte das figuras que vê.
No mundo do futebol, há os que se destacam na identificação com a torcida e se tornam ídolos. Esses, por sinal, são aqueles a quem recorrer nas crises, aqueles em quem confiar para reverter os quadros de instabilidade. Mas e quando, por melhores que sejam, nem eles são suficientes ? Decidi focar no exemplo dos atacantes bicolores porque são uma prova das crises e soluções.
Voltemos a Nicolas Johann: terceiro maior artilheiro do Paysandu no século 21, com 68 gols em 171 jogos, campeão paraense e da Copa Verde, além do seu carisma com a Fiel (não à toa recebeu o título de Cavani da Amazônia). Nicolas teve, em Belém, duas passagens marcantes, mas não com o desfecho que merecia. Mesmo marcando 8 gols na primeira metade de 2025, o desempenho do atleta não foi o bastante para recuperar o futebol e o desempenho coletivo do clube paraense. Foram 4 gols na Série B e uma coletânea de atuações discretas, que somadas à lanterna do campeonato, riscaram tudo o que havia sido construído até então.
Aí está um processo muito perigoso: trazer de volta e bancar os ídolos, sejam eles jogadores, treinadores ou dirigentes. Até que ponto insistir no que já deu certo é tolerável ? Nessa aposta, Nicolas não foi feliz, e a torcida bicolor viu um de seus grandes jogadores dos últimos anos assinar com o Criciúma, partindo de Belém como um estranho, sem discursos de despedida ou homenagens. Devemos ir tão longe para encontrar mais melancolia e imagens arranhadas ? Não. Basta analisar os ciclos viciosos de Hélio dos Anjos e Márcio Fernandes em seus retornos, ou a ferida aberta pela família Aguilera com seu último representante na presidência, ou a demissão do histórico massagista do clube, o Seu Ivan, ou ainda as saídas judiciais de atletas que antes eram identificados com a torcida, a exemplo de Leandro Vilela e Rossi.
Tentativa e erro, mas entre eles existem também os acertos, e um deles apareceu na primeira partida oficial do Paysandu em 2026: Ítalo marcou seu primeiro gol com a camisa celeste para selar uma paz muito bem-vinda no começo de temporada. O atacante, junto à Miguel Ângelo, da base, serão as opções de atacante central para a temporada, e são apenas um exemplo de toda a reformulação no elenco que disputará a Série C.
Como remanescentes de 2025 temos apenas o lateral Edilson e o zagueiro Luccão, todos os demais não seguirão para esse ano. Se for um acerto, os novos atletas criarão nova identidade com a torcida, se for uma aposta equivocada, novas peças virão, e assim as tentativas devem ser a partir de agora no Clube. O torcedor deseja se reconectar com o Paysandu, deseja um trabalho honesto e bem feito, sem falsas promessas e mais decepções com aqueles que trouxeram alegrias no passado. A diretoria parece responder a esse desejo, e que assim seja, trabalhando discretamente e estabelecendo novas pontes a partir de 2026. Novo elenco para verdadeiramente mirar novos rumos, e um respiro para voltar a se alegrar. Talvez todo esse desenrolar tenha começado no gol de Ítalo Carvalho.


